Fora das órbitas*
O 38 está apontado para o coração de Estanislau. Logo abaixo do mamilo esquerdo, tremendo, o cano do revólver está apontado diretamente para o coração de Estanislau. Ele vai morrer; ele vai se suicidar; ele treme, como o cano do revólver; ele sua frio, nu, deitado em posição fetal e o 38 também frio, gelado, apontado diretamente para o seu coração enlouquecidamente batendo. Sua frio, pois está terrivelmente frio nesta noite de agosto, um vento glacial, uma geada negra, a sua casa está gelada como a rua. Estanislau não chora, treme.
II.
O polaco Estanislau, mais branco que leite, fazia qualquer tipo de bico em A., localidade simples do interior. Era entregador num supermercado, trabalhava na colheita da soja, na silagem, de caseiro muitas vezes, de auxiliar de pedreiro, no transporte do gado, no plantio do milho, na limpeza do CTG, de pintor, planta algumas verduras no seu pátio. Mora sozinho. Freqüenta o bar do seu Soelir, onde toma alguns talagaço da cana, quase nada, janta o pãozinho com leite, e fala do tempo e da soja. Sempre às nove e meia diz que tá “indo fechá as cortina dos óio”, e vai para casa dormir. Dorme. Levanta às seis no outro dia, c’o sol ainda atrás do mato. Estanislau tem espaço à revelia, os vastos campos ao seu redor, de soja e milho no verão, o trigo novo daquele julho, algumas araucárias num capão isolado. Tem espaço e facho, mas não dinheiro. A casinha simples fica na beira da BR, não passa muitos autos lá, não incomodam, mas Estanislau quer um sitiozito, rezes, uns alqueires pra plantar soja e milho, trigo no inverno. Quer conseguir um dinheiro e se sediar no Tocantins, Mato Grosso, Maranhão, onde tem terra à revelia. Ele é novo, não tem família, pode vingar. E é ambicioso o bicho. Mas agora não tem nada. Os bicos de dia, o bar do seu Soelir à noite. E mais nada.
III.
Estanislau, numa tardinha fria, entrou no bar do seu Soelir esperançoso não sabia o porquê.
-Mas o senhor me sirva uma aí, seu Soelir.
O velho serviu a cachaça. O ar, apesar de frio, estava pesado. Nas mesas, alguns comiam o lanche, tomavam trago, conversavam quase sem falar. Estanislau dizia mais coisas que o normal pro dono do boteco. Ria, coisa que quase não era o seu vulgo. Dizia que iria plantar no Tocantins, logo que tivesse troco. Lá é o futuro, seu Soelir! O senhor esteje certo que em alguns anos o senhor só vai me ver é lá! Mas pode escrever, seu Soelir. Lá é que tem terra mas muita. Quase escondido, um homem bem vestido bebia coca-cola, espreitando o nosso biscateiro. O velho dono do bar, com sua boca enorme, a sua mão tal qual uma rocha de tão grande no ar, espantava pra casa a sua piazada que vinha brincar no boteco do avô.
-Mas você pegue as suas coisinhas e vá pra casa, piá! Dizia Soelir ao mais velho, um demônio.
-Essa piazada, - disse sorrindo Estanislau.
-A gurizadinha nessa idade é terrível, não é?
Era o homem bem vestido. Se não fosse difícil falar isso, poderia dizer que o tipo era encantador. Encantador, essa é a palavra. Encantador. Tinha um sorriso solto, belos dentes brancos, os cabelos lambidos de gel. Tinha um cheiro de mulher, um cheiro bom de aconchego na cama com uma mulher. Mas era homem, rapaz! Era homem aquilo! Foi se achegando ao Estanislau. E o Estanislau foi deixando, meio apatetado, atongalhado, um sorriso besta na cara. Não que o bem vestido fosse putão, não era. Nem o Estanislau, esse não era. Mas foi se achegando, se achegando, todo o bar, o seu Soelir também, gostando da presença do tipo, tipo agradável.
-Sempre que eu venho pra cá – disse o homem, o único que conseguia falar no boteco do seu Soleir – eu gosto de ver essa gurizada do interior correndo. Eu gosto de criança, sabe, de criança do interior, então... Vocês criam muito bem os filhos, são educados, mesmo as pestes.
A voz do homem era, também, encantadora. Linda e sonora. As pessoas ficaram a ouvir o dito do homem, suas viagens ao exterior, como era a vida pro norte e pro sul, tudo. De repente, ele fez as pessoas perderem o interesse em sua conversa, pois simplesmente parou de conversar. Passou a sussurrar algumas coisas ao Estanislau de como ele poderia ganhar algum dinheiro, mudar para o norte, ser dono do norte se quisesse, mas como, parecia pensar o Estanislau, eu sei como, respondia o homem, e eu não cobro nada, nada mesmo, eu não sou o demo, não cobro nada, eu só sei como, só me deixa te dizer como, Estanislau, e o Estanislau começava a gostar, e não parecia ser o homem algum ruim, não, era correto o tipo, um bom homem, tinha certeza, e tu vais sair da beira daquela BR, Estanislau, vai pro norte, vai ser o dono do norte, mas como, mas como. Ninguém olhava para os dois.
-Eu sei de um dinheiro, Estanislau, e sei onde ele está enterrado, meu querido! Queres saber onde?
-E por que não!?
Silêncio de inverno.
IV.
Não é preciso dizer que Estanislau, com uma pá na mão, na mesma noite se dirigiu ao local que o homem indicou. Embaixo daquela araucária enorme, de tronco estranhamente esverdeado. Todos da cidade conhecem a árvore, é perto da fazenda do seu Walmor. E lá foi o bichão do Estanislau. Tinha um barulhinho de mato, ar frio, gearia ao amanhecer. Estanislau esfregou as mãos. Começou a cavar no local indicado pelo homem, na direção sul. Cavou durante vinte minutos. Nada. Cavou na direção norte. Nada. Por que foi acreditar naquele homem! É claro que não tem nada! Por que que o tipo ia me dizer onde tinha dinheiro enterrado?! E eu, pra que acreditar. Estanislau, Estanislau, você, mas que, isso... Estanislau cavava. E se arrependia.
Passou boa parte da noite cavando e parando, maldizendo o homem cheiroso. Mas não parava de cavar. Quem sabe...
Aquilo que Estanislau viu já pelo meio da noite, ele nunca esqueceu, mesmo que quisesse e durante boa parte da sua vida futura conseguisse por breves períodos. Na clara noite de inverno, sem vento, daquelas que antecipam geada, um tipo sobre um cavalo, de camisa branca e calças largas surgiu lá pros lados da fazenda do seu Girú. Vinham, homem e animal, lentamente, tão lentamente que Estanislau, preocupado, acompanhou a sua aproximação desde que apareceram como um vulto.
Homem e cavalo levaram bons minutos para chegar a um local em que a voz de Estanislau pudesse ser escutada por eles.
-Opa, homem, que tal?
O cavaleiro não respondeu. Conduzia o animal com um tipo elegante, as pernas fortes engolfando o bucho do animal. Na claridade da lua, era uma visão bonita, mesmo que sinistra.
-Mas o que que você quer?
Estanislau apavorava-se. Viu, na assombração agora mais próxima, coisas não humanas, impossíveis no corpo humano. Tinha os olhos fora das órbitas a aparição, as duas bolas brancas com as veias vermelhas que são os nossos olhos humanos penduradas em cordas como cordões umbilicais. Estanislau gelou.
-Se tu queres esse dinheiro, eu posso te ajudar a cavar. Eu sei onde ele está.
Estanislau estava mudo. A aparição extática sobre o cavalo que pastava tranqüilo o mato gelado, os olhos pendentes próximos à boca, as cavidades dos olhos fundas que nem dois poços, escuras que nem dois poços.
-E eu só te ajudo se tu me ajudares. Põe os meus olhos nas órbitas. Se tu fizeres isso, eu te ajudo. Estanislau continuava mudo. Que negócio é esse?!
Tombou desmaiado.
V.
Estanislau acordou com o sol, a geada cobrindo o campo, seu corpo dormente de frio. Como não morri, tá tudo congelado. Como não morri? O que foi aquilo?
Voltou pra casa e definhou. Passou dias sem sair. Emagreceu. Entrou num estado indizível de desassossego. O bicho como que morreu. Não foi mais ao bar do seu Soelir, que se preocupava com o cliente e amigo. Mandou um seu piá bater na casa de Estanislau. O bichão respondeu que não queria nada, que estava bem, vai daqui, piá!
-Pobre do Estanislau. Foi depois que ele falou com aquele tipo, te lembra? Dizia o seu Soelir para um dos que estavam no boteco naquela noite. Esse tipo era muito cheiroso, vai ver que era o demo.
E ninguém podia deixar de rir.
O inverno correu assim. A cidade esqueceu-se de Estanislau. O bom Soelir mandava comida pro pobre, que almoçava e jantava a bóia.
A casa, com todas essas semanas de descaso, virou uma pocilga. Era uma porqueira aquela tapera. O habitante, pensava seu Soelir, vai morrer! Qual motivo disso tudo! O que houve!?
O habitante morria, sim. Enxotava quem vinha bater na sua porta, deixava a vida, sim.
VI.
Intimamente, Estanislau tinha mais malogro que externamente. Era um trapo o seu interior. A sua casinha estava imunda, e ele estava imundo, os seus pensamentos estavam imundos, a idéia de suicídio queimava aquela existência. E ele ficou assim, horrível, por não ter família, não é? Quem poderia, de fora, assistir aquele homem, salvar aquele homem. Alguns tentavam, pela amizade, mas quem iria entrar na pocilga daquele homem se ele estava um monstro de hostilidade? Todos se preocupavam e se esqueciam de Estanislau.
Aquela visão, que ele já nem sabia se tivera realmente, tomava a sua vida. Estava desesperançado; coitado. Passava os dias mornos e as noites geladas da mesma maneira, sem roupas, em posição fetal, tremendo, balbuciando horrores. Deliraqva terrívelmente. Cagava e mijava naquela pobre cama. Estava preso naquela cama. Passava os dias sobre ela, chafurdando nas necessidades, dizem que muitas vezes comendo as próprias fezes quando não tinha forças para pegar o almoço que lhe mandava o seu Soelir. Comia a própria merda, o coitado! Comia e sobreviveu, você veja.
VII.
A deterioração de Estanislau foi rápida, assim como a sua retomada. E naquela noite mas muito fria de agosto, de um vento cortante, pouco tempo depois da aparição, Estanislau resolveu por fim a sua vida. Depois de jantar o almoço, pegou o 38, se deitou na cama, nu, sem cobertor ou qualquer esquentador, falou para si em voz bem alta da noite da aparição, do dinheiro, dos olhos fora das órbitas, e tremia. Encostou o revólver no coração, revolveu os olhos e tremeu pensando ser a última tremida. Não agüentava mais tremer. Engatilhou a arma. O suor descia da cabeça, o frio era daqueles, um cheiro de madeira queimada no ar, dos fogões a lenha. Estava horrivelmente frio. Nunca sentira tanto frio, nem quando dormiu sobre a geada. Se lembrou daquela noite e da aparição, dos olhos... Gritou. E não apertou o gatilho. Não teve coragem. Teve uma força inexplicável, e não atirou em si mesmo. Viveu. Se recompôs. Reapareceu. Nunca foi para o norte, mas conseguiu um emprego de peão numa fazenda. Volta e meia, passa pela araucária enorme perto da fazenda do seu Walmor. Passa e faz o Sinal da Cruz dos polacos.
RH
*Baseado numa lenda paulista


