<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660</id><updated>2011-04-21T14:57:03.563-03:00</updated><title type='text'>Os netinhos da Norcy</title><subtitle type='html'>Um blog a mais...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>9</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116551951768589861</id><published>2006-12-07T17:15:00.000-02:00</published><updated>2006-12-09T10:07:55.490-02:00</updated><title type='text'>Fora das órbitas*</title><content type='html'>I.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 38 está apontado para o coração de Estanislau. Logo abaixo do mamilo esquerdo, tremendo, o cano do revólver está apontado diretamente para o coração de Estanislau. Ele vai morrer; ele vai se suicidar; ele treme, como o cano do revólver; ele sua frio, nu, deitado em posição fetal e o 38 também frio, gelado, apontado diretamente para o seu coração enlouquecidamente batendo. Sua frio, pois está terrivelmente frio nesta noite de agosto, um vento glacial, uma geada negra, a sua casa está gelada como a rua. Estanislau não chora, treme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O polaco Estanislau, mais branco que leite, fazia qualquer tipo de bico em A., localidade simples do interior. Era entregador num supermercado, trabalhava na colheita da soja, na silagem, de caseiro muitas vezes, de auxiliar de pedreiro, no transporte do gado, no plantio do milho, na limpeza do CTG, de pintor, planta algumas verduras no seu pátio. Mora sozinho. Freqüenta o bar do seu Soelir, onde toma alguns talagaço da cana, quase nada, janta o pãozinho com leite, e fala do tempo e da soja. Sempre às nove e meia diz que tá “indo fechá as cortina dos óio”, e vai para casa dormir. Dorme. Levanta às seis no outro dia, c’o sol ainda atrás do mato. Estanislau tem espaço à revelia, os vastos campos ao seu redor, de soja e milho no verão, o trigo novo daquele julho, algumas araucárias num capão isolado. Tem espaço e facho, mas não dinheiro. A casinha simples fica na beira da BR, não passa muitos autos lá, não incomodam, mas Estanislau quer um sitiozito, rezes, uns alqueires pra plantar soja e milho, trigo no inverno. Quer conseguir um dinheiro e se sediar no Tocantins, Mato Grosso, Maranhão, onde tem terra à revelia. Ele é novo, não tem família, pode vingar. E é ambicioso o bicho. Mas agora não tem nada. Os bicos de dia, o bar do seu Soelir à noite. E mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estanislau, numa tardinha fria, entrou no bar do seu Soelir esperançoso não sabia o porquê.&lt;br /&gt;-Mas o senhor me sirva uma aí, seu Soelir.&lt;br /&gt;O velho serviu a cachaça. O ar, apesar de frio, estava pesado. Nas mesas, alguns comiam o lanche, tomavam trago, conversavam quase sem falar. Estanislau dizia mais coisas que o normal pro dono do boteco. Ria, coisa que quase não era o seu vulgo. Dizia que iria plantar no Tocantins, logo que tivesse troco. Lá é o futuro, seu Soelir! O senhor esteje certo que em alguns anos o senhor só vai me ver é lá! Mas pode escrever, seu Soelir. Lá é que tem terra mas muita. Quase escondido, um homem bem vestido bebia coca-cola, espreitando o nosso biscateiro. O velho dono do bar, com sua boca enorme, a sua mão tal qual uma rocha de tão grande no ar, espantava pra casa a sua piazada que vinha brincar no boteco do avô.&lt;br /&gt;-Mas você pegue as suas coisinhas e vá pra casa, piá! Dizia Soelir ao mais velho, um demônio.&lt;br /&gt;-Essa piazada, - disse sorrindo Estanislau.&lt;br /&gt;-A gurizadinha nessa idade é terrível, não é?&lt;br /&gt;Era o homem bem vestido. Se não fosse difícil falar isso, poderia dizer que o tipo era encantador. Encantador, essa é a palavra. Encantador. Tinha um sorriso solto, belos dentes brancos, os cabelos lambidos de gel. Tinha um cheiro de mulher, um cheiro bom de aconchego na cama com uma mulher. Mas era homem, rapaz! Era homem aquilo! Foi se achegando ao Estanislau. E o Estanislau foi deixando, meio apatetado, atongalhado, um sorriso besta na cara. Não que o bem vestido fosse putão, não era. Nem o Estanislau, esse não era. Mas foi se achegando, se achegando, todo o bar, o seu Soelir também, gostando da presença do tipo, tipo agradável.&lt;br /&gt;-Sempre que eu venho pra cá – disse o homem, o único que conseguia falar no boteco do seu Soleir – eu gosto de ver essa gurizada do interior correndo. Eu gosto de criança, sabe, de criança do interior, então... Vocês criam muito bem os filhos, são educados, mesmo as pestes.&lt;br /&gt;A voz do homem era, também, encantadora. Linda e sonora. As pessoas ficaram a ouvir o dito do homem, suas viagens ao exterior, como era a vida pro norte e pro sul, tudo. De repente, ele fez as pessoas perderem o interesse em sua conversa, pois simplesmente parou de conversar. Passou a sussurrar algumas coisas ao Estanislau de como ele poderia ganhar algum dinheiro, mudar para o norte, ser dono do norte se quisesse, mas como, parecia pensar o Estanislau, eu sei como, respondia o homem, e eu não cobro nada, nada mesmo, eu não sou o demo, não cobro nada, eu só sei como, só me deixa te dizer como, Estanislau, e o Estanislau começava a gostar, e não parecia ser o homem algum ruim, não, era correto o tipo, um bom homem, tinha certeza, e tu vais sair da beira daquela BR, Estanislau, vai pro norte, vai ser o dono do norte, mas como, mas como. Ninguém olhava para os dois.&lt;br /&gt;-Eu sei de um dinheiro, Estanislau, e sei onde ele está enterrado, meu querido! Queres saber onde?&lt;br /&gt;-E por que não!?&lt;br /&gt;Silêncio de inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso dizer que Estanislau, com uma pá na mão, na mesma noite se dirigiu ao local que o homem indicou. Embaixo daquela araucária enorme, de tronco estranhamente esverdeado. Todos da cidade conhecem a árvore, é perto da fazenda do seu Walmor. E lá foi o bichão do Estanislau. Tinha um barulhinho de mato, ar frio, gearia ao amanhecer. Estanislau esfregou as mãos. Começou a cavar no local indicado pelo homem, na direção sul. Cavou durante vinte minutos. Nada. Cavou na direção norte. Nada. Por que foi acreditar naquele homem! É claro que não tem nada! Por que que o tipo ia me dizer onde tinha dinheiro enterrado?! E eu, pra que acreditar. Estanislau, Estanislau, você, mas que, isso... Estanislau cavava. E se arrependia.&lt;br /&gt;Passou boa parte da noite cavando e parando, maldizendo o homem cheiroso. Mas não parava de cavar. Quem sabe...&lt;br /&gt;Aquilo que Estanislau viu já pelo meio da noite, ele nunca esqueceu, mesmo que quisesse e durante boa parte da sua vida futura conseguisse por breves períodos. Na clara noite de inverno, sem vento, daquelas que antecipam geada, um tipo sobre um cavalo, de camisa branca e calças largas surgiu lá pros lados da fazenda do seu Girú. Vinham, homem e animal, lentamente, tão lentamente que Estanislau, preocupado, acompanhou a sua aproximação desde que apareceram como um vulto.&lt;br /&gt;Homem e cavalo levaram bons minutos para chegar a um local em que a voz de Estanislau pudesse ser escutada por eles.&lt;br /&gt;-Opa, homem, que tal?&lt;br /&gt;O cavaleiro não respondeu. Conduzia o animal com um tipo elegante, as pernas fortes engolfando o bucho do animal. Na claridade da lua, era uma visão bonita, mesmo que sinistra.&lt;br /&gt;-Mas o que que você quer?&lt;br /&gt;Estanislau apavorava-se. Viu, na assombração agora mais próxima, coisas não humanas, impossíveis no corpo humano. Tinha os olhos fora das órbitas a aparição, as duas bolas brancas com as veias vermelhas que são os nossos olhos humanos penduradas em cordas como cordões umbilicais. Estanislau gelou.&lt;br /&gt;-Se tu queres esse dinheiro, eu posso te ajudar a cavar. Eu sei onde ele está.&lt;br /&gt;Estanislau estava mudo. A aparição extática sobre o cavalo que pastava tranqüilo o mato gelado, os olhos pendentes próximos à boca, as cavidades dos olhos fundas que nem dois poços, escuras que nem dois poços.&lt;br /&gt;-E eu só te ajudo se tu me ajudares. Põe os meus olhos nas órbitas. Se tu fizeres isso, eu te ajudo. Estanislau continuava mudo. Que negócio é esse?!&lt;br /&gt;Tombou desmaiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estanislau acordou com o sol, a geada cobrindo o campo, seu corpo dormente de frio. Como não morri, tá tudo congelado. Como não morri? O que foi aquilo?&lt;br /&gt;Voltou pra casa e definhou. Passou dias sem sair. Emagreceu. Entrou num estado indizível de desassossego. O bicho como que morreu. Não foi mais ao bar do seu Soelir, que se preocupava com o cliente e amigo. Mandou um seu piá bater na casa de Estanislau. O bichão respondeu que não queria nada, que estava bem, vai daqui, piá!&lt;br /&gt;-Pobre do Estanislau. Foi depois que ele falou com aquele tipo, te lembra? Dizia o seu Soelir para um dos que estavam no boteco naquela noite. Esse tipo era muito cheiroso, vai ver que era o demo.&lt;br /&gt;E ninguém podia deixar de rir.&lt;br /&gt;O inverno correu assim. A cidade esqueceu-se de Estanislau. O bom Soelir mandava comida pro pobre, que almoçava e jantava a bóia.&lt;br /&gt;A casa, com todas essas semanas de descaso, virou uma pocilga. Era uma porqueira aquela tapera. O habitante, pensava seu Soelir, vai morrer! Qual motivo disso tudo! O que houve!?&lt;br /&gt;O habitante morria, sim. Enxotava quem vinha bater na sua porta, deixava a vida, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Intimamente, Estanislau tinha mais malogro que externamente. Era um trapo o seu interior. A sua casinha estava imunda, e ele estava imundo, os seus pensamentos estavam imundos, a idéia de suicídio queimava aquela existência. E ele ficou assim, horrível, por não ter família, não é? Quem poderia, de fora, assistir aquele homem, salvar aquele homem. Alguns tentavam, pela amizade, mas quem iria entrar na pocilga daquele homem se ele estava um monstro de hostilidade? Todos se preocupavam e se esqueciam de Estanislau.&lt;br /&gt;Aquela visão, que ele já nem sabia se tivera realmente, tomava a sua vida. Estava desesperançado; coitado. Passava os dias mornos e as noites geladas da mesma maneira, sem roupas, em posição fetal, tremendo, balbuciando horrores. Deliraqva terrívelmente. Cagava e mijava naquela pobre cama. Estava preso naquela cama. Passava os dias sobre ela, chafurdando nas necessidades, dizem que muitas vezes comendo as próprias fezes quando não tinha forças para pegar o almoço que lhe mandava o seu Soelir. Comia a própria merda, o coitado! Comia e sobreviveu, você veja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A deterioração de Estanislau foi rápida, assim como a sua retomada. E naquela noite mas muito fria de agosto, de um vento cortante, pouco tempo depois da aparição, Estanislau resolveu por fim a sua vida. Depois de jantar o almoço, pegou o 38, se deitou na cama, nu, sem cobertor ou qualquer esquentador, falou para si em voz bem alta da noite da aparição, do dinheiro, dos olhos fora das órbitas, e tremia. Encostou o revólver no coração, revolveu os olhos e tremeu pensando ser a última tremida. Não agüentava mais tremer. Engatilhou a arma. O suor descia da cabeça, o frio era daqueles, um cheiro de madeira queimada no ar, dos fogões a lenha. Estava horrivelmente frio. Nunca sentira tanto frio, nem quando dormiu sobre a geada. Se lembrou daquela noite e da aparição, dos olhos... Gritou. E não apertou o gatilho. Não teve coragem. Teve uma força inexplicável, e não atirou em si mesmo. Viveu. Se recompôs. Reapareceu. Nunca foi para o norte, mas conseguiu um emprego de peão numa fazenda. Volta e meia, passa pela araucária enorme perto da fazenda do seu Walmor. Passa e faz o Sinal da Cruz dos polacos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RH&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Baseado numa lenda paulista&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116551951768589861?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116551951768589861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116551951768589861&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116551951768589861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116551951768589861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/12/fora-das-rbitas.html' title='Fora das órbitas*'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116183346723457154</id><published>2006-10-26T01:28:00.000-02:00</published><updated>2006-10-26T01:31:07.243-02:00</updated><title type='text'>Urro desentranhado na noite</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Beira de praia, perto da meia-noite. Um jovem rapaz está sentado numa cadeira de plástico, com um violão no colo e uma caixa de isopor contendo gelo e várias latas de cerveja. Ele canta, bolina seu instrumento, fuma e bebe com a paz espiritual de uma noite libertária e um amanhã disponível para bocejantes nadas. A praia está deserta. De repente, um homem, raça indefinida, e um cão, pastor alemão, se aproximam. O jovem fica alerta e receoso. Os dois intrusos (extrusos?) passam pelas costas do preocupado rapaz e afastam-se deixando fundas pegadas na areia fofa. O violeiro abre uma lata de cerveja e decide-se por uma música instrumental lenta e dedilhada. Mas ainda tem o canto dos olhos fixos no andar da dupla forasteira. Bebe um gole que já não tem mais gosto, dedilha uma melodia agora inaudível. Só o que existe são aqueles dois. A quinhentos metros do rapaz, o homem pára e o cão também. Tanto um quanto o outro olha para o mar. E, agora, ouve-se o grito colhido nas vísceras. O homem grita de forma estrondosa, mefistofélica, gutural, clamando ao mar com veemência hedionda, como se as águas, as ondas o estivessem dilacerando da pior forma possível. O brado lancinante parece extravasar a dor mais aguda já sentida desde o &lt;em&gt;big-bang&lt;/em&gt;. O jovem tremia e tinha os batimentos acelerados diante da cena dantesca. Por maior que fosse a curiosidade que o acometia, o pavor subjugou-o. Recolheu a cadeira, o violão e a caixa de isopor e fugiu correndo. Bebeu as últimas cervejas, no pátio da casa de sua avó, com a horrenda imagem sonora do pior urro que já ouvira assombrando seus pensamentos covardes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiago Thomé (vulgo Lurdek Urticária AriovaldoMêndica)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116183346723457154?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116183346723457154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116183346723457154&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116183346723457154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116183346723457154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/10/urro-desentranhado-na-noite.html' title='Urro desentranhado na noite'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116173050495719115</id><published>2006-10-24T20:53:00.000-02:00</published><updated>2006-10-24T20:58:16.710-02:00</updated><title type='text'>A resposta de Norcy</title><content type='html'>Frase dita por Norcy, meio ressabiada, ao saber da existência de um texto muito singelo a seu respeito, publicado neste blog:&lt;br /&gt;-O que que ele disse de mim!?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116173050495719115?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116173050495719115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116173050495719115&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116173050495719115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116173050495719115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/10/resposta-de-norcy_24.html' title='A resposta de Norcy'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116146220556834295</id><published>2006-10-21T18:14:00.000-02:00</published><updated>2006-10-31T23:36:01.303-02:00</updated><title type='text'>Onde está a Norcy?</title><content type='html'>Onde está a Norcy? Não a vemos mais por aqui, sumiu, desapareceu. Alguns dizem que virou lenda, que pode caminhar sobre as águas, chegar à ilha do Campeche como se ainda estivesse andando sobre a areia... Mas creio que ela esteja mesmo no Morro das Pedras, naquele estranho, pouco funcional e peculiar agrupamento de casas que é o seu canto, definitivamente incorporado à nossa história, às nossas melhores lembranças. Talvez a Norcy esteja agora sentada - um pouco jogada - sob o toldo verde meio musgoso, os braços nos braços de uma cadeira de praia, as mãos pendentes, e as pernas abertas e descansadas. Conversa despretensiosamente com a tia Nelly e, pigarreando sempre, fita serenamente todo o verde de seu pátio, - seus olhos azuis esplêndidos, graves em ocasiões solenes, incisivos na irritação, sapecas no bom humor, estão tranqüilos. Ergue-se com um pouco de dificuldade- mas ainda firme-, e pega uma vassoura.&lt;br /&gt;E talvez nós mesmos estejamos no 2º andar acordando e sentindo a pálida luz de um dia nublado invadir as frestas da persiana. Há algum burburinho na cozinha. Ao longe, como um arranhão no solo, a Norcy varre, e varre, e varre; redondo e soberano, o colossal estrondo do mar é o baixo contínuo dessa existência. Abrimos os olhos, então, já plenamente conscientes desse novo mundo quase inverídico, que deixa uma certeza temporária da inexistência de asfalto, cidade, Porto Alegre, - coisas que ainda não foram inventadas. E há nessa certeza um brilhante aspecto de sonho. De repente, a Norcy nos chama: está na mesa, meio-dia, almoçaaaaar! Levantamo-nos. No quarto da frente, agora vazio, a janela está aberta ao mar, à praia; o dia é cinza, e a ilha do Campeche, com seu contorno singular, está num verde escuro; um leve vento sul balança as árvores mais altas; as ondas fortes quebram ruidosamente. Amanhã o sol aparecerá! Ou a chuva.&lt;br /&gt;No nosso quarto novamente, - abrimos as persianas, deixamo-las bater com força na parede externa da casa, vestimos uma bermuda e uma camiseta rapidamente, e tocamos pra baixo.&lt;br /&gt;Estão todos na cozinha pequena de azulejos escuros; uns falam alto, outros já comem, alguns retornam da praia quase deserta. Fora, o ar salgado mistura-se ao odor de mato. E a Norcy vem da casa da frente, os cabelos presos levemente desgrenhados, conduzindo com destreza suas havaianas em passos firmes, o prato de sagu amparado por suas mãos gordinhas de unhas fortes. Todos naquela cozinha vivem uma vida que não nos parecia possível um mês antes. Tempo e espaço não constituem problema.&lt;br /&gt;Depois de uma tarde na praia ou na cama a ler, - olhos no horizonte ultramar, nalguns barquinhos, no livro - joga-se canastra; uns reclamam da sorte dos outros em brigas fictícias (pelo menos pra maioria); todos dizem estar com azar; com as suas cangalhas imensas, a Norcy sonda curingas. Depois, cama. E, entre o ribombo do mar e as bobagens ditas por todos na escuridão do quarto, esperamos um novo dia, de sol ou chuva, sem maiores preocupações, sem maiores ambições.&lt;br /&gt;Todo esse cenário é verdadeiro, mas esquecido durante o ano adquire a mesma condição fictícia da cidade. E quando retornamos ao Morro das Pedras, é como se a memória involuntária fosse provocada e, melhor, efetivamente vivida. Essa Norcy, tesa em seus chinelos, meio rude nas suas roupas despojadas de pescador, livre em sua propriedade, anfitriã dedicada, parece-nos imaginária, fantástica. Mas ela está lá, e lá vai ficar, não adianta. Resta-nos ir. E quando tudo isso acabar, e o irreal não se transformar mais em vida plena, sobrará, enfim, o triste e vago monólogo das reminiscências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;R.H.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116146220556834295?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116146220556834295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116146220556834295&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116146220556834295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116146220556834295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/10/onde-est-norcy.html' title='Onde está a Norcy?'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116114476797822117</id><published>2006-10-18T02:07:00.000-02:00</published><updated>2006-11-09T18:21:25.596-02:00</updated><title type='text'>A Teoria da multiplicidade de universos (3)</title><content type='html'>Com as faces afogueadas e os olhos ainda embaçados de sono eu analisava o pergaminho pousado sobre a escrivaninha, deitado na minha cama com as mãos entrelaçadas na nuca, as pernas estupidamente abertas, amolecidas pelo extraordinário calor londrino de fins de junho; meu quarto era uma sauna, com suas paredes grossas e janelas duplas abertas apenas numa fresta ridícula; a rua parecia envolta num torpor, - lânguidas as pessoas, lânguidas as coisas, como que inertes num líquido viscoso. Da sala vinha a voz ensurdecedora de meu tio, dizendo qualquer coisa sobre o calor e o tratado de Kioto, alternando com um riso de camponês, frases despreocupadas de esconjuro aos poluidores do planeta. E essa voz estentórea, amigável e segura penetrava em meus ouvidos como um aviso de bênçãos futuras, alcançadas, é bem verdade, por uma entrega teimosa ao trabalho. E para tanto me esperava a escola do interior, com seus adolescentes prontos para a evolução intelectual, e seus professores já preparados para a aposentadoria.&lt;br /&gt;Nesta tarde desanimadora dançavam no salão imenso que era a minha mente divagações soturnas e luminosas, satíricas, incrivelmente agitadas e imprudentes, - faziam minha cabeça latejar, e deixavam-me calado e imóvel, com o olhar perdido na porta entreaberta, a experimentar as mais diversas sensações: de glória, de fracasso, do ordinário. Desdobrei-me em muitos, - poucos verossímeis. E se o pensamento de triunfo me extasiava e o de ruína me aterrava, a idéia de uma vida comum era-me um verdadeiro consolo.&lt;br /&gt;Pensava ainda que todas as superficialidades se manifestam realmente incômodas -impõem, primeiramente, uma carga de aniquilamento intelectual, misturando-se à base de todo o nosso saber, contaminando-o furtivamente; descobertas (e aí está o incômodo) continuam necessárias e indissociáveis do conhecimento adquirido muitas vezes à sua luz. E assim a Teoria mostrava-se para mim, - uma mera suposição que norteara os meus interesses escolares e filosóficos, inspirada em mim por um mestre quase desconhecido, ainda que inicialmente inspirador e digno de adoração, misto de guia espiritual e professor de ensino médio.&lt;br /&gt;Passei assim o restante da tarde: um vivo sentimento de desgosto combatido muito intimamente por uma idéia de exagerada nostalgia. Virava-me na cama, buscando uma melhor posição para o corpo, revolvendo os cabelos, impaciente, indeciso, procurando no vento morno do ventilador, a conciliação entre o poder familiar (um pouco negligenciado por mim nos últimos tempos) e a entrega de todas as faculdades ao estudo da natureza da minha mente.&lt;br /&gt;À noite, após um jantar silencioso com meus tios, aparentemente muito satisfeitos com o meu retorno, já estava decidido a desfazer-me da Teoria e a aceitar a cátedra na escola. Esta idéia de acomodação compensava a desilusão.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quente como uma fornalha, de um céu azul levemente acinzentado, nevoento, fiz uma pequena viagem aos arredores de Londres, para encontrar-me com a Senhora Margareth Tibbett em sua casa. Levava, no bolso da minha calça, o pergaminho, - sentia-o volumoso e incômodo, não como um fardo, mas como um objeto já desnecessário. Entregaria à viúva o bem que restara do espólio de Tibbett.&lt;br /&gt;O trajeto foi concluído em pouco tempo, - o ônibus vazio deixou a viagem quase tranqüila.&lt;br /&gt;A rua de Margareth era agradabilíssima: larga, com plátanos altos e frondosos que davam sombras constantes no verão, - apenas em alguns pontos fachos de sol venciam a cobertura e iluminavam o paralelepípedo esverdeado pelo musgo. Eu cruzava quase despreocupado esse corredor tranqüilo, respirando profundamente uma brisa encanada pelas árvores que balançavam despretensiosamente. Resolvido a desfazer-me do pergaminho e de seu suposto conteúdo, abri o portão da casa de Margareth Tibbett, mais iluminada pelo sol que as demais, grande para os padrões londrinos, com um belo jardinzinho de tulipas amarelas e vermelhas. Recebeu-me uma eslovaca, um pouco baixa e achatada, balofa, com os olhos graves do leste que me pareciam selvagens; indicou-me um sofá, dizendo que a senhora logo viria. Nas paredes da sala repleta de quinquilharias, algumas reproduções opacas de pinturas desconhecidas dividiam espaço com fotografias de família. Numa destas, um Tibbett de meia-idade aparecia abraçado a uma mulher muito magra e alta, de cabelos presos num coque austero, usando uma saia até os joelhos. Não conseguia ver naquela casa comum, cheia de antiguidades e fotos de classe média, a moradia original do homem aparentemente asceta que me recebeu cheio de dignidade oriental num casebre desconfortável. Supus estar no lugar errado a contemplar fotografias de um outro Tibbett apenas semelhante ao meu.&lt;br /&gt;-Bom dia.&lt;br /&gt;De trás do sofá em que eu estava vinha uma voz feminina, segura e cautelosa, que denotava certa perspicácia incomum.&lt;br /&gt;-Você deve ser Italic Bold, suponho? O que me ligou dias atrás?&lt;br /&gt;Ergui-me. Mesmo que muito mais velha, reconheci imediatamente a mulher da fotografia: o mesmo semblante chupado, de olhos solenes e simpáticos, agora os cabelos castanhos soltos, com mechas aloiradas. Fitava-me quase alegremente quando estendeu a mão para o meu cumprimento.&lt;br /&gt;-Sente-se, por favor.&lt;br /&gt;Dirigiu-se ao aparelho de som em passos flutuantes dizendo-se comovida com a visita de um ex-aluno de Leon (este era o primeiro nome de Tibbett).&lt;br /&gt;-Eu não fui um aluno do Sr. Tibbett, senhora. Interrompi inseguro. Talvez fosse melhor a palavra discípulo.&lt;br /&gt;-Ah, discípulo... Disse, sorrindo com graciosa cumplicidade.&lt;br /&gt;Uma cantata de Bach começou a tocar. Margareth sentou-se ao meu lado, com as mãos nos joelhos muito juntos.&lt;br /&gt;-Recebi, continuou, uma urna com as cinzas de Leon. Ele faleceu na China, depois de algum tempo de retiro. Morreu só, coitadinho; deixou expressa a vontade de ser cremado no vilarejo em que morou no fim. Coitadinho! Eu nem pude vê-lo uma última vez, acariciar o seu rosto que me era tão querido...&lt;br /&gt;Não consegui dizer-lhe que eu estava com mestre Tibbett em seu derradeiro momento, - culpado, não pude fitá-la em sua comoção. Valorizava ainda essa dor uma dignidade extraordinária em sua voz, devota ao falecido e à vida em comum de ambos, como algo muito mais importante que a própria ausência do marido.&lt;br /&gt;-E você, o que faz meu filho?&lt;br /&gt;-Sou físico. Vou começar a lecionar em uma escola.&lt;br /&gt;-Que bom! O Leon amava ensinar. Era algo que realmente o estimulava. Devo dizer que a física era importante para ele, mas não tudo.&lt;br /&gt;O sobrolho de Margareth arqueou-se, então, mais tenso. Fitava tristemente o tapete.&lt;br /&gt;-Não tivemos filhos, sabe. Trabalhamos a vida toda, eu arqueóloga, ele físico, como você sabe; vivemos sempre unidos, nunca nos separamos. Tínhamos os mesmos gostos culinários, literários. Gostávamos da França, de uma cidadezinha próxima ao rio Garonne com uma vinícola muito interessante, um hotel delicioso. Tenho até fotos, se tu quiseres, eu te mostro; umas em Portugal, Algarve, numa prainha muito simpática nas Canárias. Aqui é o casamento da minha sobrinha em Newcastle - disse, tirando rapidamente um álbum da gaveta - Casada com um cônsul espanhol, linda a festa, com lembranças individuais aos convidados, muito interessante. Eles estão morando na Espanha agora. Madri. Num apartamento do século XVIII, muito bem decorado, amplo, as crianças deles podem brincar à vontade. Bom, quando se aposentou, o Leon entregou-se aos estudos, andava com umas idéias de cosmos, não me dizia nada, sempre com uns livros de astrologia, astronomia, não sei... Eu não podia pegá-los, e gostava de vê-lo ocupado. Ele não podia simplesmente parar! Certo dia sumiu. Recebi, semanas depois, um postal de Pequim. Ele estava na China! Mas, desculpe-me, você disse ao telefone que queria me entregar qualquer coisa.&lt;br /&gt;Aquela mulher me extasiava; comoveu-me o seu amor pelo marido desaparecido e, por fim, morto; pelo respeito à entrega de mestre Tibbett aos seus estudos, à Teoria!&lt;br /&gt;-Nada, não senhora. Apenas os pêsames. Apenas os pêsames. Disse quase em lágrimas, apertando-lhe a mão ossuda.&lt;br /&gt;-Ah, muito obrigada... Quer café?&lt;br /&gt;-Sim, por favor.&lt;br /&gt;-Vlatezslava!&lt;br /&gt;Enquanto a empregada distribuía as xícaras, analisei a figura de Dona Margareth detalhadamente. Notei-lhe, comovido, uma semelhança indistinta com o venerável Tibbett: nas mãos de dedos finos e veias grossas, no dorso amplo, levemente inclinado, formando uma quase corcunda e, principalmente, no semblante grandioso, - este com muitos trejeitos do marido: no sorriso doce, na testa franzida ao falar com sua voz compassada, segura. Amei-a. Renascia encarnado em seu todo parecido ao mestre, o projeto que me levara à exaustão. Admirei-a ainda um longo tempo a discorrer sobre a infância de Tibbett, sua adolescência passada num seminário na Itália, de sua adoração ao oriente e como Margareth o conheceu na Universidade, o mestre sem conseguir fitá-la, tímido, mudo. Via-me tímido, mudo, jovem!&lt;br /&gt;A manhã transcorreu esplêndida, - entre o café fraco e as lembranças vívidas, a esposa de mestre Tibbett retirava a pedra que já repousava sobre os meus estímulos filosóficos outrora determinantes. Sua presença impressionante, muito compenetrada sobre a poltrona, mas também muito leve, transportou-me ao meu melhor. Sentia-me importante novamente, com a descrição detalhada da vida do venerável mestre feita com simplicidade e devoção, dos seus feitos e doutrinas, dos seus amores, das suas ilusões.&lt;br /&gt;Perto do meio-dia, levantei-me para partir.&lt;br /&gt;-Mas já? Não queres mais uma xícara, Italic.&lt;br /&gt;-Não, senhora. Muito obrigado. Disse sorrindo, contente pelas horas inspiradoras.&lt;br /&gt;Vós sabeis muito pouco, meus caros, sobre o peso que me entupia antes de entrar naquela casa. Desconfiais, talvez, da pluma que era o meu corpo ao erguê-lo do sofá.&lt;br /&gt;Cumprimentei jovialmente Dona Margareth, dizendo que uma nova visita não tardaria. Involuntariamente, então, minha mão roçou o pergaminho que criava um volume considerável no bolso da minha calça; lembrei-me do motivo da minha presença naquela casa, das minhas resoluções, do meu comprometimento. Sentia o rolinho imenso, importantíssimo, - pensava em seu possível valor intrínseco, não traduzível ainda, como um antigo manuscrito que à sua época os leitores ignorantes não pudessem entender, mas que depois de algumas centenas de anos os eruditos decifrariam e transmitiriam a toda humanidade a sua magnificência. Fitava agora a viúva, a verdadeira proprietária, e tocava o objeto em meu poder, único, pleno. Era meu dever tirá-lo do bolso, entregá-lo a Senhora Margareth Tibbett, a esposa de mestre Tibbett, voltar para casa, sem o pergaminho, sem Teoria, sem passado, sem volta! Eu suava; alternava o olhar entre a rua verde e ensolarada, o céu ainda quase totalmente azul, com apenas algumas nuvens plúmbeas de chuva quebrando a monotonia escaldante, e a mulher sorridente que me fitava com seus olhos simpáticos. Acenando a cabeça definitivamente atravessei a porta, passando pelas tulipas; decidido, abri o portão levemente ruidoso, e com um “tchau” sonoro tomei meu caminho, penetrando naquele corredor de plátanos então imóveis.&lt;br /&gt;I.Bold.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ºººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Brani scelti:&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22/09&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exposição da matéria; cronograma das aulas. Blablablá...&lt;br /&gt;Começo da aula de física neste ano. Um saco. Não tenho mais paciência para colégio. Merda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/10&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu professor de física fala mais sobre Confúcio do que sobre a matéria. É um ser esquisito. Estranho! Fala bem, é verdade. Tem uns cabelos arredondados, suiças gigantescas. Meio parecido com o Elton John.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem não passa do movimento variado e vetores! Fica falando do cosmos, mas não de astronomia. Tem qualquer coisa de novo no olhar. Parece ateu, mas eu acho que não é. Por quê? Não sei. Não tenho o que escrever sobre a matéria neste caderno. Escrevo sobre qualquer coisa então:&lt;br /&gt;Comecei a ler Hesse. Demian. Não entendo muito, mas é bonito, forte. Meu pai disse que era quase obrigatória a leitura de Hesse nos anos 60. Ele leu na época. Ele disse que hoje não entende nada. Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Bold está irritando a turma! Mas eu acho graça. Cita um mestre seu que encontrou a consciência ou coisa parecida, da mente, auto-conhecimento. Tem paixão o professor quando não fala somente sobre física. Eu gosto disso. Cria a sua aula. Assim mesmo. Você: interprete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Equilíbrio dos sólidos:&lt;br /&gt;Etc...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Equilíbrio dos líquidos:&lt;br /&gt;Etc...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Movimento dos astros:&lt;br /&gt;Etc...&lt;br /&gt;22/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Bold se fixa nos astros. Não sai disso; falou do Universo e de suas infinitas possibilidades. Interessante. As aulas dele me cativam, me orientam, de certo modo. Interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor tem uma presença um tanto inquietante. Tem arrebatamento, parece genial às vezes... Parece que... Parece que enfia pelos olhos e pelos ouvidos o que quer! Acredita no que fala. Me entusiasma. Me sufoca também. De física, nada para ser registrado neste caderno infame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;China!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1º/12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor Bold será louco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor Bold explica ainda o movimento dos astros. Subiu na mesa para dizer que tudo, os movimentos, os sonos, os dias de chuva ou sol se repetirão infinitamente, como células pequenas numa grande célula. Muito interessante. Ninguém liga... Eu...!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos fala hoje sobre um tal mestre Tibbett (ele inclusive escreveu o nome no quadro-negro: T-I-B-B-E-T-T). De uma teoria desenvolvida por este, sobre universos paralelos. Da importância dessa teoria. O que será?&lt;br /&gt;O que será?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de matéria hoje. Não vou escrever nada sobre física.&lt;br /&gt;A Teoria! O que será??&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matéria- Exaustores:&lt;br /&gt;Etc...&lt;br /&gt;A Teoia! o que será...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teoria... Puta que pariu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116114476797822117?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116114476797822117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116114476797822117&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116114476797822117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116114476797822117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/10/teoria-da-multiplicidade-de-universos_18.html' title='A Teoria da multiplicidade de universos (3)'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-116025383521087926</id><published>2006-10-07T18:33:00.000-02:00</published><updated>2006-11-09T17:56:31.846-02:00</updated><title type='text'>A Teoria da multiplicidade de universos (2)</title><content type='html'>&lt;em&gt;Obs:Aconselhável reler a primeira parte.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca antes em minha vida eu desejara um objeto como desejava aquele pergaminho simples e sujo, que rolara despretensiosamente do corpo seco de mestre Tibbett. Não havia naquele rolinho prazer estético, como há num livro novo, em que o seu odor ou seu aspecto exterior me induzem a lê-lo mais do que propriamente por seu conteúdo. Tampouco valor histórico, ou mesmo literário. Havia nele a descoberta, o ideal, o meu futuro- aspectos, agora sei, apenas imaginados por mim, mas intimamente plausíveis.&lt;br /&gt;E ao mesmo tempo em que o corpo sem vida do venerável inescrupulosamente desaparecera da minha mente, surgia nesta apenas o rolinho de pergaminho, inerte e absoluto. Peguei-o e o desenrolei nervoso; ao abri-lo, respirava com dificuldade, suava; ao tentar lê-lo, não o li, pois me era impossível; ao dar por mim, não conhecia ainda o verdadeiro conteúdo do mistério. Não entendi nada, pois apesar de eu acreditar realmente que no pergaminho estivesse contida a Teoria, esta estava inteiramente escrita em chinês. Inacreditavelmente, aqueles símbolos desconhecidos feitos de traços ricamente desenhados num preto profundo abarrotavam o pergaminho, cobriam-no de alto a baixo, tornando-o realmente artístico, mas inútil. Desesperei-me novamente. Morrera o velho mestre que eu mal conhecera e com ele a Teoria; renascera esta no pergaminho miraculoso; morrera novamente no seu chinês indecifrável.&lt;br /&gt;Após uma silenciosa despedida ao venerável Tibbett, a viagem de volta a Pequim foi lenta e cansativa. As estações se acumulavam em horas intermináveis; as paradas faziam-nos torrar ao sol do semi-árido; o entra-e-sai de pessoas com bagagens e animais me enervava; camponeses antipáticos roçavam-se uns nos outro e em mim, desacomodados nas poltronas e corredores lotados, enquanto eu tentava, na luminosidade esfumaçada do trem, captar algum sinal da Teoria nos caracteres magníficos feitos por Tibbett. O que me reservava aquilo? A “minha” Teoria da multiplicidade de universos estaria certa, reinventada por mim em quase todos os seus aspectos?&lt;br /&gt;Pequim dormia sob nuvens tênues e amareladas quando desembarcamos. A arquitetura insólita de tons ocres da estação e a tempestade de areia transformavam aquelas primeiras horas do dia num quadro de Turner. Respirava-se com imensa dificuldade e o vento tornava a locomoção penosa -apenas chineses em bicicletas que cruzavam o cenário como que flutuando lembravam-me de estar na Terra, e não num planeta arenoso e sem vida. Naturalmente, o meu destino àquela hora deveria ser um hotel, mas o pergaminho me impelia a outro lugar: ao consultório de Chang, o meu guia em seu país, que conhecia o inglês perfeitamente e poderia traduzir a Teoria. Cruzei a cidade para encontrá-lo, num frenesi que fazia minhas mãos tremerem.&lt;br /&gt;Chacoalhando no táxi, pensava no último telefonema que fizera para a Inglaterra, e na voz distante de meu tio explicando a importância de eu assumir uma cátedra de professor substituto numa escola do interior; dizia-me, ainda, da urgência do primeiro emprego e do prazer indescritível do primeiro salário; da vida que me aguardava, simples e confortável, abençoada por Deus como a vida de todo o bom e honesto cidadão que crê e produz. Refletia assim olhando distraidamente pela janela do carro a tempestade ruidosa, que deixava desertas as ruas cobertas de areia.&lt;br /&gt;O consultório de Chang resumia-se a uma sala escura com armários repletos de compêndios de medicina ocidental, duas cadeiras, mesa ampla de carvalho negro e uma pequena reprodução do “Dr.Tulp” de Rembrandt numa das paredes cinzas, tendo na recepção apenas três bancos que não estavam ocupados. O próprio médico veio ao meu encontro à porta, muito solícito e simpático, com mesuras tão antigas como as feitas nas &lt;em&gt;soirées&lt;/em&gt; do século XIX. Formara-se em medicina na Inglaterra, e clinicara por lá durante uns vinte anos, sendo convocado, digamos assim, pelo regime comunista para trabalhar na China. Parecia estar feliz.&lt;br /&gt;-Fez boa viagem, Sr. Bold? Disse, indicando-me uma cadeira para pacientes.&lt;br /&gt;-Dentro do possível, Sr. Chang.&lt;br /&gt;-Mas é sempre bom voltar à civilização! O senhor quer um chá? Não? Pois bem. Estou com poucos clientes hoje, como o senhor pode ver. Mas é uma viagem muito cansativa esta pelo interior, não? Creio que o senhor demorou umas três semanas por lá, se não estou enganado? Alguma moléstia durante a viagem? Hahaha! Acreditava que não, realmente... O oriente sempre sedutor! Sempre, heim. As pessoas continuam pensando mil e uma coisas a seu respeito. Ah, o senhor quer água?&lt;br /&gt;-Também não, obrigado.&lt;br /&gt;-Tempestade terrível, não.&lt;br /&gt;Ele olhava, pela janela, a nuvem amarelada engolfar o casario desolado, suportando resignado o poder do qual os homens fugiam.&lt;br /&gt;-Encontrou o Sr. Tibbett?&lt;br /&gt;-Sim.&lt;br /&gt;O rosto de Chang assumiu um ar mais pesado, e os dentes acavalados não ressurgiram no seu sorriso fácil e peculiar.&lt;br /&gt;-O senhor sabe, Sr.Bold, que a esposa do Sr.Tibbett (Sra.Margareth é seu nome) mandou-me um telegrama para saber notícias do marido. Eu não poderia dizê-lo, pois Tibbett está sempre mudando de vila e...&lt;br /&gt;-Tibbett morreu, Sr.Chang, interrompi-o, sem desejar escutar mais sua conversa sempre fatigante. Fitou-me consternado; seu dorso desabou no encosto da poltrona. Como eu queria, sua boca ágil se fechou sem palavras num arco choroso.&lt;br /&gt;-Ele deixou isto, Sr.Chang, disse-lhe, sem tempo para explicações. Eu gostaria que o senhor traduzisse para mim.&lt;br /&gt;O médico tomou pesaroso o pergaminho de minha mão, perguntando-me como tinha acontecido aquilo com um homem tão forte e sadio.&lt;br /&gt;-O coração...Disse-lhe, indicando o peito.&lt;br /&gt;O chinês suspirando e mexendo negativamente a cabeça pegou seus óculos e pousou-os sobre o fino nariz. Eu era todo esperança e angústia; ele, todo pesar e surpresa. Surpresa maior ainda quando deu com os olhos no manuscrito de mestre Tibbett: virou-o, pondo-o contra luz; analisou o seu conteúdo demoradamente, com seus pequenos olhos orientais indo e vindo, subindo e descendo, freneticamente, cansando-se.&lt;br /&gt;-Aqui diz: “Teoria da multiplicidade” (creio ser isso) “da multiplicidade de universos”.&lt;br /&gt;-Isso, isso mesmo, Sr Chang! Prossiga! Eu disse, na ponta da cadeira.&lt;br /&gt;-Em baixo: “De como há vários universos, células de repetição das vidas humanas, contidos num único e infinito Universo”.&lt;br /&gt;O medico parou, então, recostando-se na poltrona com ar ainda mais surpreso.&lt;br /&gt;-E então, Sr.Chang! O restante! O que está escrito!&lt;br /&gt;O chinês fitava com um ligeiro desprezo o pergaminho pousado na mesa escura.&lt;br /&gt;-Nada. Absolutamente nada.&lt;br /&gt;-Como nada! Como nada, Sr.Chang!&lt;br /&gt;-Nada, meu caro. Os caracteres contidos no restante do manuscrito são, muito provavelmente, um chinês inteiramente inventado. Inclusive a caligrafia do chinês correto parece ser de uma pessoa, a do chinês inventado de outra. Veja.&lt;br /&gt;Chang me mostrou o pergaminho. Não notei qualquer diferença nos símbolos tantas vezes analisados por mim. Todos pareciam chineses; todos pareciam obra de mestre Tibbett! Recusei-me a acreditar no médico. Ele então chamou um seu ajudante que confirmou tudo, conseguindo traduzir num inglês canhestro somente os mesmos trechos que seu patrão. Fitava os dois médicos com um olhar sinistro de um homem que recebe a notícia de sua morte iminente. "Não pode ser, não pode ser. Eles devem estar errados, idiotas!". Despedi-me calado.&lt;br /&gt;Deixei o consultório desolado. Nem sentia a tempestade me envolver e fazer pequenos arranhões nos meus braços e nas minhas faces. Tinha o peso da frustação sobre minhas costas, e a leveza do nada guiando os meus passos. A minha missão na China acabara-e ao voltar para a vida de quase-adulto no conforto de uma família que não era a minha, deveria resolver uma última questão, aparentemente sem importância, mas que, creio eu, colocaria uma pedra sobre toda a ingenuidade que até agora consumira a minha existência.&lt;br /&gt;I.Bold.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-116025383521087926?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/116025383521087926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=116025383521087926&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116025383521087926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/116025383521087926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/10/teoria-da-multiplicidade-de-universos.html' title='A Teoria da multiplicidade de universos (2)'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-115954291467937483</id><published>2006-09-29T12:07:00.000-03:00</published><updated>2006-10-20T12:51:33.706-02:00</updated><title type='text'>A Teoria da multiplicidade de universos (1)</title><content type='html'>Chamo-me Italic Bold. Tenho em minhas mãos, estou certo, o futuro da física e o vosso futuro.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;°°°°°°°°°°°°°°°°°&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Nasci prematuro, minúsculo, com prudência e sem choro. Até os meus três anos eu tinha um aspecto de feto, marcado na aparência pela indefinição de sexo, ora menino, ora menina. Ralhavam-me, de vez em quando, por minha apatia-enjôo, na verdade, de minha casa. Mas, na maior parte do tempo, não me ralhavam, nem me notavam.&lt;br /&gt;Desde muito cedo eu nutria, nas minhas andanças solitárias pelas planícies pedregosas do interior da Irlanda, uma estranha fascinação pelo cosmos, já para mim muito mais poderoso em seus mistérios reclusos do que propriamente por suas estrelinhas longínquas e visíveis. Despertar contemplativo num ambiente nervoso e, decididamente, desestimulante.&lt;br /&gt;Quando eu tinha uns dez anos, meu pai, um inglês viúvo e grosseiro de inigualável presença fatídica, que possuía algum trabalho escuso na ilha, mandou-me- com certa satisfação, devo dizer- para o seu irmão mais velho, na Inglaterra. Pastor, casado com uma rica herdeira alemã, este era um homem igualmente rude e tosco, de enormes sobrancelhas que pareciam bigodes, voz forte de baixo russo e um ar acolhedor de sacerdote que realmente acredita na bondade de Deus. Homem de excelente índole. E sua boa vontade me reservou uma infância sadia e tranqüila, formação sólida que possibilitou acesso às artes e às ciências e um espírito mais recluso que o habitual, pois, normalmente, passava meus dias sem ninguém a atrapalhar minhas leituras. Restante de infância pacata, seguida de uma adolescência sem grandes percalços. Período singelo de minha existência perturbado apenas por uma vaga impressão de que todo o meu interesse, seja pelas coisas da ciência, seja pelas coisas mesmas da vida, seu quotidiano, por exemplo, estava voltado para algo muito mais subjetivo e, talvez por isso, mais inquietante do que o conhecimento tradicional e seus dogmas.&lt;br /&gt;Já formado em Física e desassossegado, alguns anos mais tarde empreendi uma viagem pela Ásia patrocinada por esse meu bom tio. Ásia! Durante anos eu busquei em mim o oriente! Durante anos eu estudara sua filosofia e, através dela, imaginava a elucidação dos mistérios que me inquietavam desde a minha mais remota consciência dos conflitos humanos. Inclusive tentei, sem muito êxito, o estudo do I Ching. E agora estava eu na China, perdido em trens e vilarejos agrestes, mas certo do êxito, a procurar um venerável estudioso do Universo que se refugiara em algum lugar remoto desse país imenso. Como achá-lo? Pelo acaso? Destino? Eu realmente o encontraria? Sim! Meus caros, pelo pouco que sei da Teoria tenho a certeza de que tudo já havia acontecido centenas de vezes- eu já o encontrara antes, e continuarei a encontrá-lo ainda em infinitas oportunidades, da mesma maneira, numa repetição nunca enfadonha, pois sempre nova para quem a vive! Todas as nossas vidas, que não são em nada diferentes desta que agora vivemos, não poderão ter surpresas. Apenas a própria surpresa reservada pela mais profunda inconsciência. Mas quando eu tiver o conteúdo da Teoria em minhas mãos, ficará mais fácil para todos, inclusive para mim, compreendê-la. Voltemos, agora, à procura do venerável.&lt;br /&gt;Seu nome era Tibbett. Homem esguio, de largos ombros de nadador, olhos luminosos, que nunca haviam me encarado nos nossos rápidos encontros nos corredores da Universidade. Semblante sereno, mas que demonstrava grandes esforços mentais por seu sobrolho mais tenso que o conjunto da face. A notoriedade de tal professor como um grande estudioso da física quântica era quase lendária, e suas aulas, que versavam sobre o homem e sua relação com o Universo, estavam sempre abarrotadas. E eu nunca consegui assistir a uma aula dessas. Apenas ouvi de um colega um resumo de um ensinamento de Tibbett que dizia haver muitos universos, de múltiplos “tempos”, todos existentes num mesmo Universo, no grande Universo, este sim, de tempo e espaço únicos. Mas o que significava essa barafunda dita por meu colega? Eu nada poderia saber naquele momento.&lt;br /&gt;Alguns meses antes de, enfim, tornar-me físico, correu a notícia de que o venerável Tibbett já então adorado havia se retirado da Universidade e sumido da Inglaterra. Fora para a China passar o resto de seus dias em meditação, em exílio permanente de sua vida inglesa, do Ocidente e dos homens (sejam orientais ou ocidentais). Tornava-se, assim, algo que provavelmente não tencionava, mesmo que imaginasse ser muito provável: uma lenda. Lenda que me despertou um interesse nunca antes experimentado, nem mesmo quando pela primeira vez li uma obra de Hesse. Lenda que fez com que eu convencesse meu tio a arcar com uma dispendiosa viagem ao imenso continente asiático. Lenda que tornou a idéia simplista que eu fazia do meu futuro, num colosso pleno de significado sobre-humano, de possibilidade de conhecimento das engrenagens do tempo e do espaço e da própria história do Infinito!&lt;br /&gt;Mas não creiais, meus caros, que ao chegar ao recanto do venerável num trem velho e sujo e me instalar naquela aldeia chinesa perdida num infinito de terra estéril, depois de uma procura enlouquecedora em quatro vialarejos que meu guia em Pequim imaginava como os prováveis de abrigar o mestre, eu já tinha plena consciência de tudo o que me esperava. Não creiais, igualmente, que quando eu entrei no pequenino pátio circundado de bambus que era a casa de Tibbett na China e a sua derradeira casa no mundo, que este homem impressionante já soubesse quem eu era e o motivo da minha visita. Não. Durante dois dias Tibbett não disse nada mais do que o necessário. Frustrava minhas tentativas de entabular conversa com sorrisos discretos e olhares vagos e serenos, fechando os olhos vez ou outra, como que para entender melhor a minha permanência em seu local de meditação. Fornecia-me alimento frugal, pouca água e apenas um cobertor leve para as noites frias de verão. Acordava-me antes do sol. Não me desejava boa noite. Enfim, parecia não notar a minha desajeitada presença.&lt;br /&gt;Meditação. Oração mental que acalma e nos dá prudência e juízo. Bálsamo orientador. Confesso que nunca cultivei e tampouco me interessei por sua prática. Caso contrário, quatro dias depois eu não estaria desesperado com as atitudes incompreensíveis de Tibbett e pronto para partir de sua vila. Confesso que chorei, sem fungar e quase sem lágrimas. Mas o venerável nesse mesmo dia encostou delicadamente sua mão ossuda e com veias azuladas em meu ombro caído, com um gesto largo indicou-me um canto de seu casebre para que eu me sentasse e disse:&lt;br /&gt;-Meu caro Bold, você está aqui por quê?&lt;br /&gt;-Para conhecer a sua teoria! Repliquei, quase babando de excitação.&lt;br /&gt;-Ah sim! Minha teoria. E ...&lt;br /&gt;-Simplesmente me diga do que se trata, mestre.&lt;br /&gt;Tibbett mostrou-se, então, entusiasmado. Devo dizer que o venerável mestre teve de esconder seus dentes enegrecidos de um quase sorriso, tapando-os com o lábio superior, o que o deixou, na sua timidez, com um aspecto de velho mesquinho.&lt;br /&gt;-A multiplicidade de universos. Disse Tibbett, recompondo-se e esperando que eu o encarasse. Chama-se “Teoria da multiplicidade de universos”. Eu nunca dei detalhes dela para ninguém... Mas, que assim seja. Ainda me lembro, recomeçou o velho agora verdadeiramente enlevado, de uma bela tarde de maio, tépida, depois de um inverno frio e branco. Nessa longínqua tarde eu brincava com meus primos entre arbustos já verdes, num interminável gramado com bancos sob árvores distribuidas aleatoriamente. E víamos minha mãe na cozinha da casa lavando a louça; cantarolava qualquer canção de Brahms ("Dein blaues auge" provavelmente) numa voz tímida de meio-soprano e nos observava vez ou outra com seus olhos aquosos. Meu pai cachimbava na sacada. Ao seu lado, com um terno branco-amarelado de verão, sentado de pernas cruzadas, meu tio lia um jornal por cima dos óculos. Nessa bela tarde eu beijei minha graciosa prima Liu perto de um caramanchão.&lt;br /&gt;Tibbett riu-se, e escondendo os dentes novamente, prosseguiu.&lt;br /&gt;-E se eu lhe disser, Bold, que toda essa cena idílica repetir-se-á infinitamente.&lt;br /&gt;Estremeci. Fitava-o sem respirar, tenso, com as mãos cerradas e suadas. E o velho calou-se. Atônito eu via que esse mutismo não era passageiro, e que o venerável Tibbett deixava sua vida, sem ruído e aparente sofrimento, mas carrancudo, triste, olhos úmidos se fechando lentamente, mais profundos que em vida plena-, sucumbiam qual um &lt;em&gt;pianissimo&lt;/em&gt; de Mahler. Seu corpo tombou, então, docemente no soalho empoeirado. Estava morto. O homem que quase nada me dissera e, assim mesmo, já era adorado por mim, morto. Mas de sua túnica encardida rolou um pergaminho envolvido num fino bambu. E o que havia neste pergaminho? A Teoria!&lt;br /&gt;I.Bold.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-115954291467937483?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/115954291467937483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=115954291467937483&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115954291467937483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115954291467937483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/09/teoria-da-multiplicidade-de-universos.html' title='A Teoria da multiplicidade de universos (1)'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-115871271969548645</id><published>2006-09-19T21:15:00.000-03:00</published><updated>2006-09-20T04:30:13.746-03:00</updated><title type='text'>Grêmio farroupilha</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6328/3786/1600/mascote%20tricolor.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6328/3786/400/mascote%20tricolor.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã é certamente dia de festa no Olímpico Monumental. Por várias razões: uma delas é a fase do Imortal Tricolor, ganha tudo de todos. Outra razão é o feriado Farroupilha; nada mais justo que o único time que honra históricamente o Estado jogue no dia mais gaudério do ano. E melhor ainda que o jogo é contra um time paulista, nada poderia ser melhor, mostrar nossa superioridade como povo, cultura e inteligência dentro de quatro linhas.&lt;br /&gt;Por todas essas razões é que estarei lá. Curtindo a Máquina Tricolor atacar novamente, beleza pura. Cantaremos o hino do Rio Grande com todas as forças, para ecoar não só no estádio, e sim em todo o país.&lt;br /&gt;"Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra". E dá-lhe Grêmio, campeão de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço do Thomas, o sexto netinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-115871271969548645?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/115871271969548645/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=115871271969548645&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115871271969548645'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115871271969548645'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/09/grmio-farroupilha.html' title='Grêmio farroupilha'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-34372660.post-115845253356079896</id><published>2006-09-16T21:04:00.000-03:00</published><updated>2006-09-18T00:30:53.446-03:00</updated><title type='text'>Leão roncando</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6328/3786/1600/MGM%20madrug??o.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6328/3786/200/MGM%20madrug%3F%3Fo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Ontem, depois de mais um churras com quatro dos seis netinhos da Norcy aqui em casa, eu e o Tiago, na madruga, fomos assistir a um filme. Os outros dois netinhos da Norcy já dormiam: um (Ricardo) em sua respectiva cama; o outro (Cristiano) dormia ao nosso lado, num sofá, roncando feito um porco no cio com diarréia.&lt;br /&gt;Estávamos começando o filme quando Tiago lembrou que o ronco parecia o leão da MGM; terminando de falar isso, olhei pra capa do dvd( Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão) e advinhem quem estava estampado na capa? O famoso leãozinho MGM.&lt;br /&gt;Recuamos o pouco do filme até o início, e a cena do felino estava lá. Nos olhamos e baixamos o volume. Foi a melhor coisa que fizemos no dia, talvez na semana. O sincronismo estava perfeito, cada vez que o leão abria a boca, o porco no cio com diarréia roncava. Foi uma das situações mais engraçadas de tantas madrugas de roncos.&lt;br /&gt;Passado o episódio, o porco continuou a roncar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mais, com inúmeros relatos de madrugadas históricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço do Thomas, o sexto netinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34372660-115845253356079896?l=osnetinhosdanorcy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/feeds/115845253356079896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=34372660&amp;postID=115845253356079896&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115845253356079896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/34372660/posts/default/115845253356079896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://osnetinhosdanorcy.blogspot.com/2006/09/leo-roncando.html' title='Leão roncando'/><author><name>Doézimo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14274267556791159302</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
